05 agosto 2013

Vermelho-Sangue

E ele acordou. Um jovem de dez anos, com o sono pesado o suficiente para mantê-lo dormindo mesmo sob um holocausto, despertou. Não por um barulho excessivamente alto, não por uma luz excessivamente clara, mas sim pelo clima excessivamente tenso.

O garoto levantou e esfregou os olhos ainda com sono, quando os abriu percebeu que algo não estava normal. Seu quarto era simples, ao levantar da cama bastava virar à direita para se deparar com o corredor, não havia móveis no caminho já que o guarda roupa e a rack ficavam ao pé da cama. Mas o que não estava normal no ambiente era aquele vermelho, um vermelho rubro, um vermelho-sangue, como se alguém tivesse trocado todas as lâmpadas da casa por lâmpadas vermelhas.

E foi com a macabra iluminação que o garoto seguiu pelo corredor, ele queria ir para corredor de fora da casa, já que morava em um sobrado, e assim observar o quintal e a rua. Andou despreocupadamente, ainda tinha sono e não se deu conta que a iluminação rubra não devia ser um bom presságio.

Um pé após outro chegou ao corredor do lado de fora; e observou; e se assustou. As nuvens estavam negras, não cinzas, não escuras, realmente negras. E não estavam carregadas, não iria chover, elas estavam simplesmente desprovidas de cor.

Mas não foi isso que assustou o garoto.

O céu estava vermelho sangue, um vermelho que dava o tom macabro de todo o ambiente, e o sangue do céu desvendava o mistério do sangue em tudo.

Mas não foi isso que assustou o garoto.


As casas coloridas de sua rua, na verdade tudo que era colorido em qualquer lugar para onde olhava, estava negro. Os muros eram negros, as plantas eram negras, a terra era negra. Na verdade, tudo o que não estava em um tom de vermelho-sangue, estava completamente negro.

Mas não foi isso que assustou o garoto.  As casas estavam todas em ruinas, pedaços dos muros no chão, as plantas mortas e murchas. Não havia animais de qualquer espécie em qualquer lugar.

Mas não foi isso que assustou o garoto.

O silêncio ensurdecia, não se ouvia uma alma viva em lugar algum. Não se ouvia cochichos, não se ouvia sussurros, não se ouvia passos, não se ouvia o farfalhar das folhas ao vento.

Mas não foi isso que assustou o garoto.

Perto do portão que dava acesso à rua, cerca de vinte metros à frente, havia duas macas. Em uma maca estava a mãe do garoto, na outra o padrasto, ambos de olhos fechados, ambos com a marca de diversas facadas no peito e na barriga, e ambos banhados em um sangue.

E isso assustou o garoto.

Sem saber direito o que aconteceu ou estava acontecendo voltou para dentro e seguiu o corredor para o seu quarto, estava assustado o suficiente para não conseguir correr, então andou.
Chegou na porta do quarto, não havia som algum, mas por puro instinto se virou de costas.

Agora estava assustado o suficiente para não conseguir se mexer.

Na outra ponta do corredor, que tinha uns três metros, estava um homem. Homem de estatura mediana, vestia um sapato e uma calça negros, uma camisa listrada branco e preto e uma boina também negra.

Mas não foi isso que assustou o garoto.

Na mão direta, erguida na altura do rosto havia uma faca. Uma faca grande e suja com sangue seco.

Mas não foi isso que assustou o garoto.

No rosto barbado do homem havia um sorriso, um sorriso cínico de prazer.

E isso assustou o garotou.

E o conhecimento mútuo se fez, o garoto sabia o que iria acontecer e que não poderia fazer nada, e o homem sabia que ele sabia, talvez esse fosse o motivo do sorriso.
E uma luz se iluminou na mente do garoto, e o garoto entendeu, e com a luz da compreensão não teve mais medo. O que acontece quando o inconsciente se torna consciente na inconsciência?

O jovem se ajoelhou, bateu com as duas mãos no chão, e gritou:
_ Eu quero acordar!!!

E ele acordou. Se sentou na cama e olhou em volta, e o ambiente não estava mais vermelho-sangue, e tudo voltou aos eixos. O jovem novamente se levantou para ver a rua, virou o corredor do seu quarto, e na outra ponta havia um homem. O homem estava com a mesma roupa, com a mesma faca na mesma posição, e ele olhava com o mesmo maldito sorriso.

E o conhecimento mútuo se fez mais uma vez, mas agora nenhuma luz se iluminou na mente do jovem, e a escuridão o abraçou.



William Barbosa dos Santos

4 comentários:

  1. Nossa que denso! Parece até um dos meus sonhos insanos que guardo na memória até caírem no esquecimento. Quando a esperança surgiu no final a escuridão chegou, isso me surpreendeu. Amei o texto!
    Abraços, Raquel.
    Viajando com Livros.

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    1. Acertou em cheio ao dizer "sonhos", esse foi um sonho que tive quando era criança.
      Quanto ao final surpreendente fico feliz que gostou, foi a única parte do sonho que tive a liberdade de alterar. O que aconteceu de fato foi que acordei de verdade, mas não tinha muita graça isso :)

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  2. Socorro.
    Sinceramente, fiquei muito tensa ao ler esse texto. Queria logo saber o fim. Quando ele disse que queria acordar, pensei que tudo teria um "final feliz", como de costume, mas eu prefiro assim. Amei! Parabéns, de verdade!
    Abraços,
    Karol.
    http://heykarol.blogspot.com.br/

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    1. Vlw o feedback Gata (parece que estou te cantando... o que bem pode ser... ou não).

      Tensão foi justamente o que quis passar, e é legal (muito mesmo) saber que queria chegar logo no final para ver o que iria ocorrer :)

      Em relação à "finais felizes" eu tenho uma opinião sobre isso, mas deixarei para um post futuro no blog, talvez esse domingo, talvez no próximo, talvez outro dia, não prometo nada :)

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