04 maio 2013

Rubem Braga: Despedida

Então gente, sobre o post anterior aqui está o segundo texto.
Olha, sinceramente eu não saberia escolher entre os dois, o primeiro é magnífico e tem uma sensação que eu sinto dentro de mim quando escrevo sabe.. Liberdade, como se você pudesse tocar o mundo com as suas palavras e aventura, como se as palavras do mundo, as que você nem ao menos conhece ainda também pudessem tocá-lo, tudo é incrivelmente perfeito. E quanto a esse segundo, bom... Vou deixar que vocês leiam e tirem suas próprias conclusões. E tenho certeza que serão ótimas.

                                            Despedida



E no meio dessa confusão alguém partiu sem se despedir; foi triste. Se houvesse uma despedida talvez fosse mais triste, talvez tenha sido melhor assim, uma separação como às vezes acontece em um baile de carnaval — uma pessoa se perda da outra, procura-a por um instante e depois adere a qualquer cordão. É melhor para os amantes pensar que a última vez que se encontraram se amaram muito — depois apenas aconteceu que não se encontraram mais. Eles não se despediram, a vida é que os despediu, cada um para seu lado — sem glória nem humilhação.

Creio que será permitido guardar uma leve tristeza, e também uma lembrança boa; que não será proibido confessar que às vezes se tem saudades; nem será odioso dizer que a separação ao mesmo tempo nos traz um inexplicável sentimento de alívio, e de sossego; e um indefinível remorso; e um recôndito despeito.

E que houve momentos perfeitos que passaram, mas não se perderam, porque ficaram em nossa vida; que a lembrança deles nos faz sentir maior a nossa solidão; mas que essa solidão ficou menos infeliz: que importa que uma estrela já esteja morta se ela ainda brilha no fundo de nossa noite e de nosso confuso sonho?

Talvez não mereçamos imaginar que haverá outros verões; se eles vierem, nós os receberemos obedientes como as cigarras e as paineiras — com flores e cantos. O inverno — te lembras — nos maltratou; não havia flores, não havia mar, e fomos sacudidos de um lado para outro como dois bonecos na mão de um titeriteiro inábil.

Ah, talvez valesse a pena dizer que houve um telefonema que não pôde haver; entretanto, é possível que não adiantasse nada. Para que explicações? Esqueçamos as pequenas coisas mortificantes; o silêncio torna tudo menos penoso; lembremos apenas as coisas douradas e digamos apenas a pequena palavra: adeus.

A pequena palavra que se alonga como um canto de cigarra perdido numa tarde de domingo.



Extraído do livro "A Traição das Elegantes", Editora Sabiá – Rio de Janeiro, 1967, pág. 83.

Esse texto é simplesmente maravilhoso, eu não me canso de dizer isso. A maneira franca com que ele expõe os sentimentos que são muitas vezes vividos por nós, é perfeita. 
Espero que tenham gostado, beijos. 


Nenhum comentário:

Postar um comentário

Seu comentário nos deixará extremamente feliz, mas lembre-se: Tenha cuidado, as palavras tem poder.

- Não faça ofensas
- Não seja intolerante
- Não desrespeite a opinião alheia
- Se for divulgar, ao menos comente sobre o blog!

Não se esqueça de no final deixar o link do seu blog pra podermos retribuir, será um prazer.

Obrigada ♥
xoxo